Em Madrugada Ébria, Ângelo é um cara de classe média, 30 anos, vive da pensão que sua avó lhe deixou e mora num apartamento pequeno e bagunçado. É um homem que vive de sonhos e de sombras. O sonho de tornar-se um poeta renomado está sendo sempre empatado pela sombra da mulher amada e do fracasso. Até onde o poeta quer fazer de seus sonhos uma realidade? Ângelo vive uma vida simples. Do apartamento para o bar da rua ao lado, de lá para o apartamento, entre conversas e divagações sobre amor, literatura, vida e morte. Nada o leva a nenhum caminho concreto. Fala muito de Stella, uma ex-amante. A partir disso, a comparação de caráter entre ambos os personagens é o tempo todo feito por Ângelo, que se coloca como uma sombra de Stella, e com isso, uma série de sentimentos e impressões sobre a vida vão sendo tecidas pelo personagem nas suas conversas com o amigo Lúcio. Stella nunca esteve mais viva para Ângelo. A história caminha por declives ou clímax, desembocando num misto de sentimentos de conformidade e desespero, revelando as ânsias e os medos do personagem principal, o qual será tragado por um destino muito maior que ele.
O
protagonista levanta o questionamento perante o, já citado, “estupro em livrarias de Paris”. Em sua
retórica, o personagem esclarece tal afirmação: é ser lido (visto, benquisto –
dentre outros adjetivos (dês-) qualificativos – reconhecidamente) até mesmo em sua própria casa, seu próprio quarto.
O
grupo tem a pretensão de alcançar os multi-versos labirinticamente escondidos pelas
esquinas e ruas onde se encontram os intelectuais (dês) conhecidos que vão
sendo substituídos em sua cotidianidade. Esse universo é posto sob o signo de
um único bar sobre o palco (ou de palco, posto sobre um bar). Há todo tipo de
estereótipos pelos bares, assim todo tipo de bares pelos próprios estereótipos
debatendo (-se), discutindo toda sorte de coisas vivendo-as –, mas até onde realmente
discutimos (enquanto artistas, pessoas, cidadãos, seres vivos) bares cidade-além o que deveríamos, fora de sua ensurdecedora, cega e
efusiva euforia? Bares são espécimes antropomórficos criados inconscientemente pelo homem – bar (enquanto constructo biorgânico à
imagem e semelhança de sua clientela, suas
células) são, subvertida-mente,
nossos melhores abrigos socio-nucleares.
A
concepção cênica do espetáculo
“Madrugada Ébria” se embasa, principalmente (além de outras referências), na
estética cinematográfica do Noir (“negro”,
em francês; associado a filmes
policiais a priori, onde as personagens eram retratadas num mundo cínico e
antipático, resultado de uma combinação de estilos e gêneros derivados de
romances de suspense da época da Grande
Depressão americana e do visual dos filmes de terror da mesma década; o noir “não é um gênero em si, mas um
estilo visual”, segundo o crítico James Monaco) e do Cyberpunk (de ciber(nética) + punk; o sub-gênero
de ficção científica, utiliza elementos do noir
e da prosa pós-moderna para
descrever o lado subterrâneo da sociedade eletrônica sob seu niilismo e sua contra-cultura, que começou a
ser desenvolvida nas últimas duas décadas do século
XX – as histórias
dentro do estilo são vistas como representações ficcionais do presente a partir
de uma extrapolação e especulação das tecnologias de comunicação, como por
exemplo, a internet), assim como do Ultra-Romantismo
(também chamado de “Mal-do-Século”, corrente literária da
segunda metade do séc. XIX, que se caracterizou por levar ao exagero, e por
vezes até ao ridículo, as normas e ideais preconizadas pelo Romantismo e
caracteriza-se, principalmente, pela liberdade criadora e sua versificação
livre – o conteúdo é mais importante que a forma; são comuns deslizes
gramaticais –, poesia subjetivista, egocêntrica, que exprime pessimismo doentio,
descrença generalizada, tédio pela vida e obsessão pela morte que impregna a tudo
de tristeza e desilusão). Assim também como a filosofia existencialista e a literatura daí decorrente, a qual se
evidencia mais fortemente no primeiro ato do espetáculo.
Pretende-se, ainda, através do naturalismo,
encontrar lacunas em que a estética do Absurdo seja evidenciada, encaixando-se
aqui o teatro-performance, assim como as outras
vertentes do Teatro Moderno.
Na
dramaturgia, O Bar, lugar onde se passa a história, é também personagem
principal do enredo. Trata-se (como já dito anteriormente) de um bar-exposição,
feito para provocar os artistas da cidade a colocarem ali a sua obra. O “bar-reduto de artistas” é, acima de
tudo, algo para-além de mero bar, tornando-se, sobretudo, organismo vivo tão quão suas personagens. É o
abrigo de uma minoria que, frente à maioria os incita a embarcar em uma viagem gritante
e agonizante da representação da vida através da arte, assumindo essa faceta
contrária ao status quo vigente que
nos programa desde cedo para o um movimento inverso. Ou seja: o artista
torna-se o cidadão comum e, este, torna-se o artista através da intervenção sociocultural
instalada no local da ação do grupo no momento.
Ficha
Técnica
Direção:
“Sociedade do Amor Suicida” – Coletiva.
Elenco:
Maiara Teles, Bruno Lobo, Adrian de La Vega, Bruno Ricardo.
Produção:
Apo
Pádua e Maiara Teles
Figurino: Andréa Bezz
Dramaturgia:
Adrian de La Vega (autor) e Samuel Denker (co-autor)
